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"Você sabe o que eu quero dizer, não tá escrito nos outdoors. Por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior" (Engenheiros do Hawaii)

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Desnudando(-se) Eu, Farrapo

Capa de Eu, Farrapo, de Maciel Ferreira de Lima. 
Foto: Divulgação



Os caminhos, muitas vezes, trazem marcas das trajetórias que nos constituem. Fazer exercícios de recuperação podem ajudar a nos (re)conhecermos mais, nossos processos, a criatividade que nos é marcante. Essas são algumas das provocações que podem ser evocadas já nas primeiras linhas de Eu, Farrapo (2020), do dançarino e pesquisador acadêmico Maciel Ferreira de Lima.

Num relato auto (biográfico/etnográfico) dos processos de criação artística do espetáculo Eu, Farrapo, para a conclusão de uma disciplina do curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal de Alagoas, Maciel apresenta mais do que a dança, e como ela se entrelaça com a própria trajetória.

A vida de morador numa cidade da zona da Mata alagoana (Santana do Mundaú), a iniciação com dança, a vida em Diáspora pelo Brasil, a afirmação de homoafetividade, de descoberta e identificação com a religião de umbanda nos apresentam a diversidade cultural e existencial do autor de Eu, Farrapo.

Para além da descrição de processos artísticos, o livro nos apresenta a potência de um corpo que dança e vive no mundo. Chama a atenção, como tratado acima, do diálogo entre as artes cênicas e a Antropologia, a qual inclusive marca o autor mais fortemente por agora.

E as conexões também foram se articulando ao Eu, resenheiro. "Quem tem uma Farrapo, nunca está só". Enquanto estive com o livro, perdi minha carteira com os documentos, e mentalizei a frase da dedicatória. Após algum tempinho, o Uber em que eu estava apareceu para me devolver a carteira.

Outro detalhe é que Maciel assinou a dedicatória para nossos (à época) quatro gatos (Miúcha, Phante, Al Gatino e Gota Serena), mas colocou umas reticências ao final. Hoje, celebramos a chegada de Juliette Cheetara ^^.

Para além dessa feliz coincidência, o livro nos convida a (re) pensar nossas escolhas profissionais-pessoais-artísticas que acabam auxiliando a nós, fazedores de cultura, a incrementar nossos fazeres a partir de nossas auto-compreensões. Na dimensão religiosa, um alento para quem se compreende místico em sentido amplo, pendendo ao catolicismo (pela constituição familiar,) e à umbanda, pela busca espiritual dos últimos anos. Um relato vivo e pulsante de Maciel. Axé!


Para adquirir: tratar pelo Instagram @sandes.alessandra ou pelo telefone (82) 99626-7703 (Alessandra Sandes).

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Epidermia policromática ou "só entregar-se a esse planeta de cores"

Capa e verso de "Cores sob nossas peles", de Noé Filho


A fenomenologia nos diz que a vida do outro só o outro pode experienciar. Daí a alteridade freireana: o exercício de compreensão, de buscar se irmanar com as experiências do outro. Essa chave pode ajudar à leitura de Cores sob nossas peles (2019), de Noé Filho.

Com uma simplicidade admirável, o autor chama  essa forma fraterna de nos aproximarmos das experiências das outras de "empatia", no conto "Empatia é poder", por exemplo mas não necessariamente. Desde o início, ele faz quem passou se identificar, e quem não ele convida a compreender o lugar da outra pessoa.

O início com poema de Mário Faustino marca a grandiosidade a que se pretende a obra. Mário Faustino configura-se uma por uma grandiosidade poética e ser-no-mundo cujo valor veio a ser reconhecido tempos depois. O que aprendeu alemão com professor de inglês; que escreveu também no Pará; que anteviu a própria morte em voo estratosférico. Uma figura marcante.

A forma prosopopo(é)t(ica) da escrita de Noé conduz a pessoa leitora pelos fios de narrativas singelas, fortes quando sensíveis. Ao mesmo tempo, traz grandes máximas, axiomas sobre o ser. Num dos contos, ele traz uma passagem de grande beleza, inspiradora mesmo: "Percebi que esse é o maior objetivo. Quando o artista sente. Quando alguém se emociona". A frase materializa a maior de minhas inspirações ao produzir arte e cultura e, creio, de muitas de nós que produzimos cultura.

Cores sob nossas peles também me permitiu lembrar do maravilhoso e mais recente "Eu Ainda Te Amo" (Gabriel Martins, Editora Triquetra), pela importante representatividade de minorias LGBTQIA+ na literatura nacional e, podemos dizer, global.

O livro é um mani(a)(fe)s (to) de acolhimento a cada LGBTQIA+ que se sentiu em desamparo, em amores realizados ou não, em aceitação. Enfim, para cada LGBTQIA+ que tem orgulho de ser e de existir.  Parabéns!

Como adquirir: pelo direct do Instagram @noerhfilho, lembrando que o preço é social, você paga o quanto puder. 





sexta-feira, 23 de julho de 2021

Era uma vez um falso francês

 

Capa de O Falso Francês, de Ítalo Damasceno


Quem é o autor? Onde cabe o leitor? Podemos ir pra onde for? Pelo menos duas dessas três perguntas povoaram minha leitura de O Falso Francês (PI/Brasil/Mundo, 2020), do escritor piauiense Ítalo Damasceno. 

O livro narra a história de João Manuel, um quase-ninguém-josé morador de São Félix do Alto, em 1849. Dá na telha dele, certo dia, de escrever para folhetins, ou melhor, de traduzir folhetins do francês para o português. João tem o entendimento de que não iriam publicar uma trama assinada por ele, então passa a ser o legítimo tradutor alto-morro-felicense de Patrice du Jardin, escritor francês. A obra? L'Embarquement pour Cythère, a ser publicada no A Brisa da Tarde, periódico do velho e sagaz seu Tista.

A escrita envolvente, fluida e cativante (de João e de Ítalo, ambos de penas profícuas), fazem com que o autor seja um sucesso na cidade, atraindo a atenção de uma moça, Edith das Almas, que logo vai atrás do patrão de Manuel  para saber quem é Campos Belos, pseudônimo do "tradutor" de Patrice du Jardin.

Se foi spoiler, não sei, mas paro por aqui com a descrição da obra, e entro na resenha. 

Ítalo esteve em uma live no Instagram do coletivo de mídia contra-hegemônica Ocorre Diário, em que também falou de sua trajetória, do sucesso de O Falso Francês (1° lugar na lista de ficção histórica, ação e aventura na Amazon em 2020). Também pudera: o conto conduz em linguagem simples e direta a história do Falso Francês João Manuel. 

Tive a grata satisfação de ser (a)presenteado à obra há pouco mais de um mês, através do conterrâneo de Ítalo (e meu amigo de longa data), Wilton Lopes (gratidão 🙏🏿). 

Respondo à primeira pergunta sobre de quem é a autoria lembrando de um filme que vi numa noite perdida de insônia.

No filme "Incógnito" (1997) temos um falsário requintado que reproduz fielmente obras de arte consagradas, e as revende por altos preços. O protagonista de O Falso Francês, João Manuel, se aproxima disso de uma forma bem diferente: com a esperteza forjada no aperreio da rotina da classe trabalhadora, ele tem respostas e cocriações de histórias tão logo é interpelado sobre elas. Faz os percursos que nos são tão comuns enquanto povo latinoamericano, de encontrar saídas diante das problemáticas cotidianas, de ressignificação de correrias para abrigarem nossos sonhos e vivências.

Já no livro Budapeste (2003), de Chico Buarque, o "escritor-fantasma" José Costa vira Zsózé Kósta graças a uma viagem à Hungria, enquanto escreve um livro autobiográfico de um tal Kaspar Krabbe, que o atormenta. João Manuel também tem seus fantasmas.

A série francesa Lupin (2020-), da Netflix, retrata um personagem dito fora da ordem que sempre escapa das armadilhas montadas por seus inimigos. Assim também João Manuel vai se constituindo com as suas histórias inventadas para envolver as pessoas a publicar a tradução que ele transcria.

Caberia que o leitor interviesse na história? Sim. Do livro e do conto. O Falso Francês traz elementos que poderiam muito bem ser adaptados como uma peça de teatro (pessoas atrizes, roteiristas e diretoras de teatro, corram aqui e confiram essa obra, para adaptá-la!). Podemos ir pra onde for? Sim, dessa vez graças ao Falso Francês. Boa leitura!

Pra adquirir:  chama o autor no probleminha do Instagram @biitalo 😉.

E tem a acessível versão em audiobook pela @atocadoslivros.

Sem contar o e-book

Inclusive ele também lançou O Segredo de Amarilis Antúrio recentemente. Mas isso é outra história. 



segunda-feira, 25 de junho de 2012

RIO+20: Especialistas em meio ambiente mostram visões do Piauí sobre o evento


Jorge André
Valdemar Morais


Tânia, João, Sueli, Deocleciano e Dalton (esquerda para direira): cinco olhares sobre a Conferência Rio+20 (Foto: montagem).


A Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável, mais popularmente conhecida como Rio+20, realizada entre os dias 13 e 22 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro, mobiliza diversos segmentos sociais, envolvendo não apenas os participantes oficiais – autoridades de vários Estados-nações e membros da sociedade civil organizada – como também pessoas que pensam a questão ambiental em sentido mais amplo. Devido à importância global da Rio+20, no Piauí há gente discutindo a conferência.
É o caso da Coordenadora Geral da Rede Ambiental do Piauí (REAPI), Tânia Martins. Embora o órgão não participe diretamente, estará presente em um evento paralelo, a Cúpula dos Povos na Rio+20 – construída predominantemente por movimentos sociais de todo o mundo. “Montaremos um ‘palanque’, ou seja, um agrupamento de pessoas para chamar a atenção para as problemáticas ambientais do Piauí, com ênfase para a Serra Vermelha, floresta que vem sendo dizimada para produção de carvão no Sul do Piauí. A ideia é mobilizar a sociedade que por lá vai está a fim de conseguirmos o maior número possivel de apoio”, afirma Tânia.
Sobre a participação do estado piauiense na Rio+20, a ambientalista acredita que, embora o espaço dê oportunidade para que seja falado e mostrado o quanto o planeta está se degradando graças a ações depredatórias, o Piauí não terá uma participação efetiva. “Do ponto de vista dos órgãos ambientais governamentais creio que será um fiasco já que não têm o que mostrar em defesa do meio ambiente”, pontua.

Fé e meio ambiente

A Cáritas estará presente nas discussões sobre a Rio+20. Foto: Cáritas Brasileira

Outra entidade que pensa a problemática ambiental no Piauí é o núcleo estadual da Cáritas, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Com atuação voltada para o desenvolvimento sustentável e a defesa e promoção de direitos, o órgão pretende, segundo o Assessor Técnico de Projetos João Evangelista dos Santos Oliveira, defender a preservação da caatinga na Cúpula dos Povos na Rio+20 por meio de políticas públicas voltadas para o bioma local. “O evento paralelo vai propor ações de preservação ambiental e da diminuição da camada de poluentes. Vamos, assim, fazer pressão para tentar garantir mais legislação em favor da preservação ambiental. Não queremos que a Rio+20 seja um acordo de cavalheiros que depois não venha a ser cumprido. Já se passaram 20 anos da Eco-92 e os Estados não cumpriram os acordos” , afirma.
João enfatiza que a discrepância de estrutura entre as entidades não governamentais que trabalham a questão ambiental e o governo impede um trabalho mais efetivo da Cáritas e de outros órgãos, e contribui para o agravamento das questões relativas ao bioma piauiense. “O processo de desenvolvimento pautado pelo governo apoia o agronegócio em detrimento da agricultura familiar. Na imprensa também temos dificuldade, porque acaba sendo filtrado um volume de informações, e ficamos à margem dos meios de comunicação. É importante destacar que realizamos um trabalho de educação ambiental junto à sociedade piauiense que há muito era pra estar avançado no Estado, mas não ocorre”.

Por outras formas de construir o meio ambiente equilibrado

DIHUCI: pesquisas por uma realidade socioambiental mais justa e igualitária Foto: Perfil do Evento "I Simpósio de Direitos Humanos e Cidadania", a ser realizado nos dias 28 e 29 de agosto de 2012

A professora de Direito na Universidade Federal do Piauí, e Coordenadora do Grupo de Estudos Direitos Humanos e Cidadania (DIHUCI), Maria Sueli Rodrigues de Sousa, faz uma análise do trato à questão ambiental no Estado ao longo dos últimos 20 anos. Segundo ela, embora o Estado tenha crescido em termos de órgãos que trabalham o meio ambiente, a problemática se agravou.  “Há vinte anos, a questão socioambiental no Piauí era menos grave do que o que temos hoje. Da Eco-92 pra cá, pioramos muito. A soja era a grande preocupação, que estava afetando os cerrados. A atuação do Estado só era percebida por meio do IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais), havia pouca ou nenhuma intervenção na agricultura tradicional. Avançamos em institucionalização no Estado, temos uma Secretaria Estadual do Meio Ambiente razoavelmente aparelhada, Secretarias do Meio Ambiente em Teresina e Parnaíba, e nos demais municípios já há uma demanda forte”. 
Segundo ela, por outro lado, o Estado piauiense, na atualidade, age em parceria com o agronegócio, e incentiva o cultivo de monoculturas como o eucalipto, contando inclusive com pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Piauí, segundo Sueli. A seca volta a ser pauta dos movimentos sociais – que em 1992 não pensavam tanto a problemática como atualmente - e a construção do trecho da Ferrovia Transnordestina no estado afetará substancialmente as populações que residem perto da obra.
Nesse contexto, a professora espera que tanto a Rio+20 como a Cúpula dos Povos na Rio+20 sejam forças propulsoras muito fortes no sentido de alertar o resto do mundo para a importância da preservação ambiental. “Espero que de lá saia alguma moção de apoio à luta pela proteção do meio ambiente no Piauí e fico desejando que alguma coisa muito forte aconteça. Que a Rio+20 seja um espaço de denúncia internacional sobre o que o governo do Piauí e o Governo Federal estão fazendo com o nosso estado. Daqui a vinte anos, numa possível Rio+40, vejo que teremos mais o que lamentar. O governo do Piauí, na conferência desse ano, vai propagandear o estado e a grande cobertura vegetal, talvez o retrato do Piauí como um estado muito rico. De fato, é muito rico, mas está sendo extremamente depauperado”, finaliza.

A visão estatal

Em matéria do Jornal “O Dia” de 12 de junho de 2012, o secretário estadual de Meio Ambiente Dalton Macambira afirmou que a Rio+20 é um espaço de debates sobre como vai ser o desenvolvimento sustentável dos países nos próximos anos. Segundo ele, haverá a preocupação do Estado em contribuir com a inclusão social e a proteção do meio ambiente. Projetos de preservação do bioma Caatinga serão apresentados, inclusive com a proposição de um Plano Estadual de Combate à Desertificação da Caatinga.
Quem também promoveu articulações em nome dos órgãos estatais referente à Rio+20 foi a Prefeitura de Teresina, por meio da Secretaria de Meio Ambiente, representada por Deocleciano Guedes. Em 30 de março de 2012, foi realizada a reunião regional de secretários de meio ambiente das capitais nordestinas em Teresina, no espaço de eventos do Metropolitan Hotel. “Na Rio+20, vamos fortalecer as posições do governo brasileiro, que foram contempladas com a carta que fizemos. Vamos juntar a sociedade brasileira pra que se faça aprovar as propostas mais avançadas em nome do desenvolvimento sustentável”, afirma Deocleciano.
Ele acredita que a Rio+20 será um evento de poucas divergências entre os Estados participantes, e que temas como a questão da água e as alterações climáticas estarão no centro das discussões. E finaliza dizendo que espera maior envolvimento da sociedade como um todo nas preocupações com o meio ambiente local. “Observamos que nos últimos anos há uma preocupação e consciência ambiental dos povos, apesar dos desmandos de alguns governos. No entanto, pensar o meio ambiente não é só uma questão de estado, mas também do individuo. Se toda a sociedade quiser, o Estado pode até não querer, mas algo vai ser feito”, finaliza.

Para saber mais, clique nos linques abaixo:






sábado, 26 de junho de 2010

Jornalismo da Maioria

É emblemático, para a construção da imagem do governo cubano como negativo, limitador das liberdades individuais e opressor de direitos humanos como a democracia, que um jornalista faça greve de fome. Logo, desdobram-se argumentos de que o socialismo é ruim para o mundo atual, e, mais ainda, que é autoritário, ditatorial.

O que não se questiona na grande imprensa é se o mundo construído além dessa ilha da América Central é garantia de um quadro oposto a isso. E, principalmente, se é melhor do que a teorização – e práticas – socialistas.

Como acreditar que uma sociedade onde o lucro tem grande importância; a diversidade de raças e sexualidades é veladamente tolhida; a democracia é concedida de uns para outros como um presente, e regida por limites dos países dominantes; como ela pode ser tão melhor para os seres humanos? É progresso? É desejada?

O jornalista, e o jornalismo que o apóia, funda sua atividade, predominantemente, na crença em um progresso. Mas a troco de quê? Da exaltação dos lucros fantásticos, por exemplo, que os royalties do pré-sal trarão a uns poucos brasileiros – que poderão sonhar com os padrões do multibilionário Eike Batista, reverenciado como um grande empreendedor?

Aqueles que saíram às ruas, aos gritos de “O petróleo é nosso!”, talvez sejam os menos beneficiados por essas grandes somas de dinheiro. Serviram mais de fontes para compor a matéria jornalística, e sensibilizar a opinião pública para que se manifeste contra a “desigual” repartição das fatias do bolo. Ou, pelo menos, para que “a voz do povo” legitime as práticas que tenderem a não partilhar o lucro.

É de se esperar que estes mesmos agitadores apareçam nas ruas, clamando pela melhor distribuição de rendas, quando perceberem que as condições de vida não melhoraram, e o petróleo virou ouro de poucos.

A imprensa majoritária, que entende democracia como liberdade ampla e irrestrita de expressão, esquece de dar voz aos que certamente também precisam. É impossível não comunicar, diria o teórico. Mas é possível não repercutir da forma que se espera.

Cuba é um país socialista diante de uma quantidade enorme de capitalismos – plurais, sim, mas todos calcados no triunfo das elites sobre os menos favorecidos. Será que o país não merece uma oportunidade de ter uma imagem mais bem construída? O filósofo Michel Foucault disse que o poder não é uma manifestação somente negativa, pois se assim o for, não se sustenta. Cuba deve ter aspectos positivos na sua forma de governo.

Não que agora devam ser defendidas práticas violentas de repressão, ou se reduzir o mundo à polarização capitalismo-socialismo da época da Guerra Fria. Nem vale dizer que o governo castrista só trouxe o bem para aquela ilha. Mas a impressão que se tira do combate feito a esse país é que há uma necessidade de varrer qualquer sombra dos “derrotados” da face da Terra. Mais ainda: que no resto do mundo repressões como essas não existem, o que é uma omissão grave.

Outros também vivem à margem de uma cobertura jornalística mais apurada. O Movimento dos Sem-Terra, por exemplo, aparece aos olhos da opinião pública como “um bando de baderneiros” que “se valem das brechas da lei para cometer abusos”.

O que é desconsiderado, em boa parte dos casos, é que o movimento não se restringe a ações violentas, irrefletidas. Ele é formado por uma pluralidade de pessoas, e essa é apenas uma de suas faces. Há pessoas lutando por condições mais dignas de vida, por um pedaço de terra, que não se valem de expedientes agressivos, como foi o caso da derrubada de pés de laranja de um latifúndio, recentemente televisionada.

Essas reflexões são apenas um ponto de partida para se analisar o fazer jornalístico. Não se deve naturalizar as opiniões da maioria como se fossem verdades absolutas, a única versão possível dos acontecimentos.

É preciso sacudir os tapetes, revelar os fatos que ocorrem não só por uma perspectiva dominante, mas perceber que há muitos elementos que podem compor uma notícia. Assim, pode-se pensar em uma imprensa que respeite mesmo a diversidade, marca do mundo contemporâneo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Onde o mundo vai acabar primeiro?


Dia 27 de fevereiro de 2010, cidade de Hilo, Havaí (ou 28 de fevereiro, conforme o fuso horário de lá). Um homem sobe no telhado de sua casa e instala uma câmera que vai filmar um suposto tsunami. Primeiro, uma rede de TV do local – a KHON – retransmitiu as imagens. Logo, a CNN soube, e cuidou de também repassar a novidade. O Planeta – ou pelo menos a América Latina – ainda estava assustado com os efeitos do terremoto no Chile. Dessa vez, pelo menos, a tragédia seria televisionada.

No Twitter, a maior novidade em sites de relacionamento da última semana, milhares de internautas ficaram de olho – e registraram isso em até 140 caracteres. Ainda bem que as previsões estavam erradas, e o tsunami virou marolinha. Mas e quando for pra valer? E quando o mundo todo for dessa (pra melhor?)?

É claro que não se pode debochar do provável término da existência humana – e do planeta. O negócio é quando a imprensa quer entender de futurologia, e avisa sem prevenir a população, para que ele possa se preparar (e há o que fazer no dia do Juízo?).

Mas já dá pra pensar como será a cobertura midiática do fim do mundo. Repórteres de todos os cantos se deslocarão desordenadamente para locais com maior chance de a Terra acabar primeiro. Tudo em nome do furo (?) de reportagem.

O site de buscas Google vai registrar “cerca de” milhões de ocorrências para expressões como “fim do mundo”, “fim dos tempos”, e afins. Autoridades de toda a Terra – e não só da China – vão tentar bloquear estas expressões, e sites de vídeos como o Youtube terão seus vídeos “removidos mediante solicitação”. Nada que os sites de compartilhamento de downloads não resolvam.

Na Família Dinossauros, foi no mínimo deprimente ver os sauros do noticiário de TV se lamentando pela extinção da espécie. Mas nas televisões brasileiras vai ser diferente. Haverá um quê de poesia na crônica de Pedro Bial: “'Mundo, vasto mundo,/Se eu me chamasse Raimundo,/Seria uma rima, não seria uma solução', diria o poeta. Infelizmente, caro Drummond, esse é um problema sem solução”.

José Nêumanne Pinto, indo “Direto ao Assunto (?)”, dirá coisas simples, como “Os desdobramentos da hecatombe reverberam pelos quatro cantos do planeta da Mãe Gaia. Perscrutemos alternativas para evadirmo-nos do final desta odisseia”.

As revistas rivais de sempre, Época e Veja, não se separarão nem no final. “Será mesmo o fim?” é a frase que estampará uma edição especial da primeira – acompanhada do suplemento “10 lições que não aprendemos para evitar o fim do mundo”. A outra, triunfante (mas pra quê?) exibirá um “Nós já sabíamos”, com uma foto impactante de algum desastre natural.

Istoé, alheia a essa discussão (!), trará um lampejo de esperança – ou uma mostra de desconfiança em relação às outras duas – com seus “Novos avanços no plantio de bonsais sintéticos”.

E o Piauí também não deixará de dar seu pitaco; o Meio Norte do dia fatídico anunciará que “Governador assegura: 'Ainda não é o fim'”. O Diário do Povo, pra não ficar por baixo, colocará na primeira página “Prefeito de Teresina tranquiliza população”.

E ainda vai ter gente que, mesmo com tantas oportunidades, não vai saber do que está havendo, nem do que vai acontecer. Não vão se dar conta de que tudo vai acabar. O mal não sabido é inexistente, como já disse Machado de Assis.

Mas ainda é tempo de calma. O mundo não vai acabar assim, instantâneo como um noticiário de tevê – a não ser que os homens façam algo de errado. E a imprensa vai servir para alertar e acalmar a todos. Se não, dá pra recorrer aos agricultores e católicos – e agricultores católicos – que antecipam que todo 18 de março, véspera do dia de São José, vai chover, trazendo sorte pra colheita. Até agora, não erraram.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Império em chamas







Sebastian Vettel (à esquerda, inferior) chama Webber de louco após batida (à direita, superior): Louco é quem diz


















A expressão carrancuda de Sebastian Vettel, após o treino de sábado para o GP da Turquia de 2010, denunciava que algo não estava bem em seu fim de semana (errou uma freada que lhe rendeu a terceira posição no grid. Culpou o carro). A performance de seu companheiro de equipe, Mark Webber, irretocável até então, certamente mexeu com a cabeça de Vettel.


Ele, que carrega no histórico de quatro anos e cinquenta corridas de Fórmula 1 uma vitória fantástica em uma equipe média-baixa (a STR), tinha tudo para ser o novo fenômeno da categoria. Talvez pretendesse seguir o caminho de Lewis Hamilton, que, já no primeiro ano, disputou o título mundial e, no segundo ano, levou o campeonato.


Infelizmente, não dispunha do suporte técnico e dos súditos do britânico da McLaren, e teve que tirar leite de pedra dos carros em que andou. Por isso, mereceu grande destaque.


Alguns comentaristas insistem que ele ainda tem muito que aprender. De fato: o erro grosseiro cometido a algumas voltas do fim do Grande Prêmio em Istambul Park não pode ser cometido por quem pretende disputar a temporada de F-1. Ainda mais do jeito que a tabela de classificação anda instável.


Webber se manteve na ponta com 93 pontos, mas se vê ameaçado pelos rivais Jenson Button (88) e Lewis Hamilton (84), o vencedor da corrida. Vettel, antes vice-líder, amarga a quinta posição (78 pontos) como consequência de sua manobra infantil.


As imagens são claras em mostrar que o erro de Webber foi se manter no seu traçado. Sebastian Vettel não quis simplesmente forçar uma ultrapassagem; queria que Webber o deixasse passar, pois o alemão atirou o carro na curva na tentativa de obrigar o companheiro de equipe a reduzir. Má ideia.


O australiano apenas se defendeu, pois o carro de Vettel não estava 100% à frente do seu. Praticamente ileso (fora a avaria no bico, que o obrigou a mais um pit-stop), ainda teve a chance de voltar à corrida e terminar em terceiro. Sebastian não pôde experimentar a mesma sorte: seu RBR ficou bastante avariado, e ele abandonou a prova com gestos de “louco” para Mark Webber. Loucura de quem? Ele já não é mais tão novato na categoria; erro censurável.


Aprendesse com Lewis Hamilton (e logo ele, tido como louco-mor da atual F1) e Jenson Button: voltas após o incidente, os dois travaram uma disputa limpa e emocionante pela primeira posição. Button deu sinais de que iria segurar a ponta depois de excelente manobra. Mas Lewis não se entregou tão fácil assim, e recuperou o lugar que herdou de Webber.


Que o campeonato está embolado já não é mais nenhuma novidade; que Webber perdeu uma grande oportunidade de fazer mais um bom resultado no início do ano que, a exemplo de Button em 2009, pode lhe render o título de 2010, incontestável. A RBR sofreu um leve arranhão na hegemonia da atual temporada. Infelizmente, causado por fogo amigo.


Se esse incidente desembocar em uma crise – como as trocas de acusações entre os dois pilotos anunciam - poderemos assistir à ruína do império, exatamente como ocorreu em 2007, na disputa interna de Hamilton e Fernando Alonso na McLaren. Pilotos excelentes, mas que, pelo desequilíbrio de um, afetaram toda uma escuderia. Na equipe chefiada por Christian Horner, porém, nem vai ser preciso uma denúncia de espionagem no meio do caminho.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Carrossel Animado

Sarney, o mágico: "Nada nesta mão, nem nesta, pode olhar!"
Foto: G1

Qual o erro da frase abaixo?

"Em 55 anos de Congresso, nunca cometi um ato de nepotismo ou apadrinhamento". (José Sarney, explicando que não tinha nada a ver com algumas nomeações de funcionários no Senado)

a) Não é possível que em 55 anos ele NUNCA tenha cometido um ato de apadrinhamento.

b) Ele NUNCA fez isso? Pois tá perdendo tempo, todo mundo já fez...

c) Nos 55 anos de Congresso, estão incluídos os de Presidente da República? Ipod acumular?

d) 55 anos de serviços prestados? E não aposentaram compulsoriamente? É UM ERRO!

e) "a", "c" e "d" tem seu quê de verdade, mas francamente...


Eita, eita...E o pior é ver que ele tem guarda-costas (!) como Collor (OMG!) e Renan Calheiros (whattaf...).

domingo, 2 de agosto de 2009

O fim de uma procura

(Essa eu tinha que registrar no blog, no Orkut, onde quer que fosse. Só eu tenho noção do quanto essa busca me deixou inquieto).

Ontem de madrugada, acordei no meio da noite, e não consegui voltar a dormir. Culpa de uma leve indigestão, adquirida no aniversário de uma tia (e tome feijoada!). Zapeando os canais, resolvi parar no Altas Horas, e ouvi esta música de Túlio Dek, "O que se leva da vida":



Precisei dos primeiros quinze segundos de música para apurar o ouvido e perceber que conhecia aqueles acordes de algum lugar. Aumentei o volume. Eu conhecia mesmo! Era de uma daquelas músicas que você sabe que já ouviu naqueles programas estilo "Segredos de Amor", voltando pra casa a bordo de um Rodoviária Circular I, gosta muito, mas não sabe de quem é.

Foi no site de Túlio Dek que tive uma das revelações musicais que mais me perturbavam o juízo: pra mim, é muito chato gostar a lot de uma música, mas ter que esperar o acaso para ouvi-la. Isso acabou. Com você, Tracy Chapman, cantando Fast Car, de 1988!:



Fica a dica: a melhor versão é essa aqui, acústica.

Letra aqui, tradução aqui.

Pra minha surpresa, Tracy Chapman é uma mulher. Já ganhou Grammy e tudo. Essa música que eu postei é muito bonita, mas a mais conhecida dela certamente é Baby Can I Hold You:



Curios@ em saber mais? Acesse a wikipédia e o site oficial de Tracy Chapman.

sábado, 1 de agosto de 2009

Entressafra

Hamilton, o vencedor do GP da Hungria: evolução silenciosa.
Foto: globoesporte.com

A Fórmula 1 está de férias até a terceira semana de agosto, quando retorna com o Grande Prêmio da Europa, disputado em Valência, Espanha. O último GP antes do recesso, o da Hungria, deixa algumas impressões que podem definir o campeonato:

- A evolução silenciosa da Mclaren atingiu seu apogeu em Hungaroring, com a vitória de Lewis Hamilton. No entanto, o que a equipe conseguir de vantagens nessa temporada se deverá muito ao talento do piloto inglês, pois Heikki Kovalainen nem de longe acompanha o desempenho de Lewis.

- Por falar em evolução silenciosa, Nico Rosberg tem carregado a Williams nas costas em 2009: com atuações que o afastam do rótulo de "Príncipe da Sexta-Feira", ele já é o quarto colocado no campeonato, atrás apenas de Brawns e RBRs. Méritos somente dele.

- A Ferrari também ressuscitou. Apesar do acidente, Felipe Massa vinha num ritmo forte de treinos, que poderia se refletir em uma boa corrida. Kimi Raikkonen fez sua performance mais agressiva na temporada 2009, e chegou em segundo. Se mantiver o ritmo, uma vitória do finlandês ainda este ano não será surpreendente.

- Brawn e RBR são mesmo as grandes forças da temporada. A escuderia britânica, porém, mostra sinais de desgaste, e mesmo os "novos pacotes aerodinâmicos" (mudanças sutis que são implantadas a cada corrida) não fazem frente à superioridade da equipe das bebidas energéticas. Jenson Button realmente precisou daquele ponto usurpado de Rubens Barrichello na Alemanha, e, caso não reaja, verá outro "piloto de meia-idade", Mark Webber, ganhar o campeonato.

- Na RBR, Mark Webber confirma que a regularidade ainda serve para lutar por um título mundial. Menos ousado do que seu companheiro de equipe, Sebastian Vettel, ele percebe a superioridade momentânea do carro que tem em mãos, e faz bom uso disso. Chegou em terceiro na Hungria, e reduziu para 18,5 pontos a diferença em relação a Button.

- A BMW-Sauber anunciou que vai sair da F-1 em 2010. Os resultados na pista, entretanto, já indicavam a queda surpreendente da equipe. Heidfeld deve ir para a geladeira, e Kubica, para uma escuderia menor.

- Outra que deve seguir o mesmo caminho é a Toyota. Desde que entrou na Fórmula 1, nunca conseguiu resultados de destaque, e sempre trouxe pilotos inexpressivos, como Alan Mcnish, Cristiano da Matta e Timo Glock (que já ganhou a GP2, mas não obteve êxito em duas tentativas na F1).

Valencia e Spa-Francorchamps, as duas provas seguintes, têm estilos diferentes de pilotagem: a primeira é circuito de rua, travada (e bastante enfadonha); a outra, coloca os pilotos no limite da velocidade, e é uma das preferidas dos competidores. Quem se sair bem nesses GPs fica com grandes chances de levar a taça de campeão, como bem lembrou Reginaldo Leme, da Globo. Dia 23 de agosto essas previsões começam a ser testadas. Aguarde!

P.S: Michael Schumacher está de volta às pistas.Podem dizer que ele não vai ter essa foooooorça toda, mas depois de mais um retorno admirável de Ronaldinho Fenômeno, eu não duvido de nada...


terça-feira, 28 de julho de 2009

Dialojar tudo bem, mas isso...

Clique na foto abaixo (porque o blogueiro não sabia como aumentar pra que você visse diretamente no blog). Notou alguma coisa -q (claro que notou, eu marquei de propósito...):


Existe uma prática de publicidade na Internet que consiste em colocar, numa página, anúncios de produtos pertinentes com o tema da matéria. Por exemplo, numa matéria sobre futebol, logo relacionam propagandas de chuteiras, bolas, camisas oficiais e etc (quem souber o nome desta prática, por favor, me diga). Então, aí eu vou e digo "ah bom, nada de anormal o anúncio dessa clínica numa página falando da Playboy da Priscila"? É, deve ser isso mesmo...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Baixou o jurista

Meu tempo, quando está relativamente ocioso, se ocupa de coisas inúteis que eu posto no blog altamente relevantes. Passando os olhos por vários (único que eu li) portais de notícias, eis que encontro esta notícia:


Ráaaaaaaaaa, meu amigo, aí baixou o estudante de Direito. Lá fui eu procurar na nossa (?) velha (??) amiga (???) Constituição Federal, o artigo relativo à acumulação de cargos na Administração Pública. Acompanhe no detalhe:

Art. 37, XVI, CF: é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, exceto, quando houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI:

a) a de dois cargos de professor;

b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científico;

c) a de dois cargos privativos de médico;

d) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões regulamentadas;

Então, disso eu concluí que não são só os profissionais de saúde que podem acumular cargos públicos (se bem que o Procurador-Geral do Estado fala de vencimentos, e quem sou eu pra discordar do que o homem fala?), e que o que o Secretário de Educação (municipal/estadual? Insira aqui outra opção) Washington Bonfim falou, significa que ...hã..., porque professores podem acumular contra(-?) cheques, desde que os dois sejam de professores.

Mas vão analisar caso a caso, seguindo a orientação do Procurador-Geral do Estado. Ainda bem...

P.S: Essa vai pra série "o que você tem a ver com isso, Jijandré?"


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Campeões de Audiência - Parte 23

Almoçando quarta-feira, dia 14 de julho, no Favorito Pop (vulgo Restaurante Popular Herbert de Sou[z]sa), vi um cara a cara de um cara muito famoso (não sei porque cargas d´água) nos anos sei lá quando.

Cheguei na Universidade Estadual do Piauí, no meio daquelas conversas super legais e instrutivas (porque são super legais e instrutivas) com a galera felizem (Ceres e Naara OLHEM O BLOG DA NAARA! O único que tem FELIPE, FELIPE MASSA, ÉEEEEEEEEEEEEEEEEEE DO BRASIL, SIL!!! http://naarac.blogspot.com/), aí olhei pra Naara e comentei o que tinha acontecido comigo de manhã: que tinha visto o tal cara a cara do cara lá.

Já chega de mistério besta bem aqui, né não? Eu disse: "Naara, vi um cara a cara do He-Man". Falei do He-Man porque achei que ela não fosse associar o nome que eu realmente pensei. Corrigi a informação: "Não, era a cara do Richard Clayderman"(de onde diabos veio esse cara?). Aí ela: "Caraaaca! Tu lembrou dele bem porque tua mãe é fã do Richard, né? Tua casa cheia de CDs dele, e tal." Fiz logo uma cara de "putz, como é que ela sabe disso?". Ao que ela emendou: "Mamãe também é fã, menino"! LOL LOL LOL LOL LOL

Fui resolver o mistério: Richard Clayderman é o nome artístico de Philippe Pagès, um pianista francês (sempre jurei que ele fosse alemão) de 55 anos, 32 deles de carreira. É um Wolfgang Amadeus Mozart do século XX: aos 6 anos (assim como o Mozart), o cara já lia partituras de maneira precisa. Aos 12, entrou para um conservatório de música, e aos 16 já era premiado (qualquer semelhança com o texto chupinhado da Wikipédia não é mera coincidência).

Lançou X CDs, couro LPs, e em 2002 (apenas em 2002) se apresentou pela primeira vez no Brasil (ele fez outro show por aqui em setembro de 2008). Sua música mais famosa (e é?) é Ballade pour Adeline, de 1976, que você confere agora:



Agora, o que eu quero entender é: como foi que esse cara ganhou fama no Brasil, a ponto de a minha mãe e a mãe da Naara terem comprado tantos CDs (a mamãe tinha bem uns cinco)? Será que fizeram com ele o mesmo que fazem com o André Rieu-who? Anunciavam o LP dele durante as propagandas da novela? E por que será que eu me lembro desse cara? Nem gostava de ouvir os CDs da mamãe...
P.S. desmancha-post: Descobri, aqui em Piripiri (porque estou escrevendo esse post de Piripiri), que minha mãe sequer lembra da existência de algum CD do Richard Clayderman lá em casa. Quem foi que descobriu esse CD? Mistéeeeerio...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Leões e Cordeiros

Mark Webber, vencedor do GP da Alemanha: o dia da caça.
Foto: F1 Around

Durante a era Schumacher, a Fórmula 1 deixou de ser um esporte para se transformar em acordo de compadres. O domínio absoluto da Ferrari fez das outras equipes, coadjuvantes, e o único capaz de bater o alemão era seu companheiro de equipe, Rubens Barrichello. Infelizmente, a escuderia italiana nunca deu essa chance a Rubinho. No Grande Prêmio da Alemanha de 2009, em Nürburgring, mudaram alguns elementos, mas a história se repetiu. Para o bem da categoria, ainda existe a RBR para reacender a disputa, a rivalidade tão necessária para qualquer esporte.

Mark Webber venceu a prova de maneira incontestável. O australiano - apelidado ao longo da carreira de "leão de treinos", porque só conseguia se dar bem na classificação para as corridas - demonstrou uma garra surpreendente na Alemanha. Defendeu a primeira posição com agressividade, jogando o carro para cima de Rubinho (Brawn GP), logo na largada - e por isso foi punido com um drive through.

Ainda assim, valeu-se de uma pilotagem sem erros, de um RBR em constante desenvolvimento e de uma boa estratégia de pit stops para reassumir a liderança, alcançando o lugar mais alto do pódio. Irretocável.

Falando em leões, outro que teve uma performance brilhante foi Nico Rosberg, da Williams. O "príncipe da sexta-feira" (chamado assim devido aos bons resultados nos treinos livres de algumas provas na temporada) ganhou 11 posições ao longo do GP, terminando em quarto lugar. Felipe Massa também teve um desempenho admirável, colocando a Ferrari em terceiro, o primeiro pódio dele no ano.

A Brawn GP reuniu elementos suficientes para representar a ruptura com o modelo covarde da Ferrari de se fazer uma estratégia. De equipe quase extinta, com pilotos à beira do esquecimento, a Brawn passou a ser favorita ao título, bem distante dos rivais. Mesmo com a grande vantagem de Jenson Button para Rubinho, ambos tinham carros em iguais condições de brigar pelo campeonato, e logo viraram exemplos de competência e superação.

Porém, a equipe inglesa preferiu repetir as práticas condenáveis da "fase de ouro" da Ferrari - não por acaso, Ross Brawn também era o chefe da equipe italiana: o lobo da vez é Button, que deixou de ser o projeto de campeão simpático, para falar mais do que correr. Valeu-se abertamente da tática de Rubinho durante o treino oficial de sábado - ele esperou para ver como seria o desempenho do brasileiro na terceira parte da classificação - e do "jogo de equipes" de Ross.

Chegou em sexto, com uma atuação bastante inferior às que tem apresentado na temporada. O inglês soma 67 pontos, 21 a mais que o vice-líder, Sebastian Vettel - o alemão, aliás, chegou em segundo, com uma atuação discretíssima. Mas há muito campeonato pela frente.

Cordeiro mesmo, só Rubinho, bem melhor que Jenson nesse final de semana: a cautela o impediu de sair da corrida logo na primeira curva; a Brawn, porém, tratou de colocá-lo onde achava devido, como fiel escudeiro. Um erro durante seu pit stop, os pneus que não atingiram a temperatura ideal, e a troca forjada de posições entre ele e Button terminaram de manchar a participação da equipe em Nürburgring. O brasileiro chegou em sétimo, e caiu para quarto no campeonato.

Um ponto faz toda a diferença ao fim de uma temporada: Räikkonen, em 2007, e Hamilton, em 2008, mostraram isso. O finlandês até foi ajudado por Felipe quando ganhou seu título, mas fez por merecer, assim como Hamilton. Não pegou bem para a Brawn.

A RBR pode não ser o novo padrão de F-1, nem Sebastian Vettel ou Mark Webber exemplos de pilotos humildes - Webber, aliás, já pensa grande. E nem é isso que se espera deles. O que se quer é ver uma disputa honesta, com ambos tendo chances de vencer, e de ofuscar o domínio de uma equipe só. O espectador agradece.

sábado, 11 de julho de 2009

Limpando as teias

Nossa, como faz teeeeeeeeempo que eu não posto nada! Aqui no blog, já tive minha fase cult, inocente, post!post!post!, madura, podre, podréerrima, e ausente. Isso não vai mudar, mas eu preciso me estimular a escrever mais, a criar mais. Se bem que, né, criatividade agora, pra quê? Enfim, isso é informação pra um outro post. Deixa eu postar meu vídeo de hoje.

Meu irmão, que já podia se considerar um jornalista (affe, pra quê essas alfinetadas gratuitas?) deixou essa preciosidade no meu Orkut. Em tempos de Twitter (e eu não consigo me acostumar com a dinamicidade desse bicho), é raro receber alguma coisa pelo já-não-tão-usado-site-de-relacionamentos. Mas vejam só que beleza (e nos primeiros segundos você confirma que eu realmente adoooooooooouro coisas bizarras):



Levada legal, né? Lembrei bastante das coisas nonsense do Quentin Tarantino. A cena faz parte do filme Gumnaan, de 1965, by Bollywood. Na verdade, é uma cena desse filme que eu falei inserida em outro, Ghost World. Valeu a pena, né?


sexta-feira, 1 de maio de 2009

Street Fighters

Neo e Smith? Branca (Suzana Vieira) e Izabel (Cássia Kiss) em Por Amor? Goku e Freeza em Dragon Ball? Esqueça! O maior duelo dos últimos tempos da última semana se deu numa seara (expressão erudita que o blogueiro usa pra mostrar que é cult) incomum: no Supremo Tribunal Federal.

Quem acompanha o STF com frequência, que nem eu (trecho desnecessário pro blogueiro mostrar a versatilidade...aham), e até quem não segue o órgão máximo em termos de Poder Judiciário no Brasil, ficou INSHOK com o grande debate jurídico dos ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa.

Ih, perdeu? Cabelincolheu! Mas Traços Esparsos traz pra você, em mãos, um trecho da refrega (mais uma expressão totalmente desprovida de relevância prática, mas a ocasião permite que retiremos do baú coisas assim, não é verdade.).





Pesquisando esse vídeo, vi que a desavença entre os dois não é de hoje, ó só:



Eu sei que você cansou de ver vídeos. Mas aí eu tenho que fazer minha homenagem ao fato. Trilha sonora dos rounds:

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ih, choveu!

A chuva do instante de agora

Veio dotada de forças descomunais:

Com um sopro levou a árvore da vida

De um homem que não queria mais.

Pois é, pessoal, essas são algumas imagens dos estragos que a chuva causou ontem em Teresina. E eu, que estava na parada da UFPI? Ainda bem que peguei o ônibus - um dos últimos da noite - a tempo (sendo que ele passou umas 18:00). Mas não sem consequências (fiquei igual a um pinto molhado).

P.S: Legendas retiradas da primeira estrofe de uma poesia que eu fiz há tempos. Profética?

P.S.2: É, Tamiris, fez falta uma câmera. Essas aí não retrataram boa parte do aguaceiro que presenciamos.

P.S. 3: Foto 1: cidadeverde.com; Fotos 2, 3 e 4: 180graus.com

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Defeitos de fabricação

Vettel com o dedo cortado após o GP da China: o novo homem que corre sobre a chuva.
Foto: G1/ Getty Images

Pelo menos nos últimos dois anos, o Grande Prêmio da China tem marcado a Fórmula 1 como um dos mais enfadonhos. Em 2007, o abandono de Alonso e Hamilton, ambos da Mclaren - e lutando pelo título - foi o que houve de mais emocionante. Em 2008, as posições se mantiveram praticamente inalteradas, e quem assistiu pela televisão teve de fazer um grande esforço para não cochilar - no ocidente, por exemplo, a prova é exibida entre 2 e 4 horas da manhã. 2009 serviu para confirmar a tese de que o circuito não é mesmo uma grande atração.

A chuva serve para tornar as provas imprevisíveis e mais disputadas. Mas em excesso, pode ser um inconveniente. Por causa dela, as sete voltas iniciais contaram com a presença do safety car, frustrando a expectativa dos fãs que queriam curtir a apreensão da largada. Além disso, os pilotos se esforçaram bastante para não sair da pista escorregadia. Robert Kubica (BMW-Sauber), por exemplo, não conseguiu segurar o carro, provocando um acidente com Jarno Trulli, da Toyota.

Só o desempenho espetacular de Sebastian Vettel fez a corrida valer a pena. O alemão da RBR se mostrou impassível diante do aguaceiro, e guiou seu carro como se estivesse andando em pista seca. É a segunda vez que ele faz isso na breve carreira de 29 GPs - e a segunda vez em que vence.

O mais incrível é que até um piloto do nível de Rubens Barrichello - conhecido por ser um especialista na chuva - cometeu deslizes em asfalto molhado, mas Vettel pareceu nem se importar com esta adversidade. Nasce um novo homem que corre sobre a chuva, e a comparação com o brasileiro Ayrton Senna é inevitável.

Antes do julgamento de 14 de abril - em que a FIA deu parecer favorável ao uso de difusores nos carros da Fórmula 1 - algumas equipes, como Mclaren, Ferrari e BMW-Sauber, e pilotos como o bicampeão Fernando Alonso, reclamaram que a peça desigualava a competição, pois Brawn GP, Toyota e Williams estavam muito superiores ao restante das escuderias, graças ao equipamento. A RBR, que não usa difusor, além de ganhar com Vettel, ficou em segundo lugar com Mark Webber, fechando uma dobradinha histórica.

Jenson Button (Brawn) - que quase era tido como desempregado a poucos dias do início do campeonato - é o líder da competição, com 21 pontos, seis a mais que Rubinho, seu companheiro de equipe - e quase aposentado por alguns. Vettel, terceiro colocado da temporada, com 10 pontos - e ele deixou de ser promessa para figurar entre os grandes nomes do esporte - corre na RBR, antes intermediária, hoje grande na Fórmula 1.

Isso prova que, na atual fase da categoria, não é uma peça que define os rumos de tudo, e ser uma marca de peso já não ajuda tanto; é preciso esforço e competência para vencer.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Garotos, Interrompidos

Pilotos e equipes aguardando o reinício da prova: espetáculo pela metade.
Foto: G1


A chuva, a pouca luz e uma opção mercadológica inconveniente fizeram terminar precocemente uma das melhores corridas da Fórmula 1 de todos os tempos. Clareando: o horário escolhido para o Grande Prêmio da Malásia de 2009 (17h) favoreceu a redes de televisão de boa parte da Europa, mas também é o período no qual mais ocorrem chuvas em Sepang. Além disso, por ser fim de tarde, havia um grande risco de o GP terminar à noite, e o circuito não possui iluminação artificial.

Essa combinação poderia interferir no bom andamento da prova. E deu certo: com 33 voltas - e quase uma hora de paralisação - os comissários decidiram encerrar a segunda etapa do Campeonato 2009 de F-1.

Antes do fim, assistiu-se a um grandioso show: desde as excelentes largadas de Alonso (Renault), Barrichello (Brawn) e Rosberg (Williams) - este último assumiu a liderança já na primeira curva - passando pelo ziguezague do mesmo Alonso com Mark Webber (RBR), ambos alternando posições em uma disputa clássica, e fechando com uma nova ultrapassagem de Vettel (RBR) sobre a antes onipotente Mclaren de Hamilton (veja mini post a respeito).

Tivemos também o abandono instantâneo de Kovalainen (Mclaren), a quebra do apagado Kubica (BMW), e algumas derrapadas de pilotos reaprendendo a dirigir - entre eles o duas vezes mencionado Fernando Alonso, que, além de ter adoecido durante a semana, mostra algum desconforto com a nova estrutura dos carros.

Pouco depois da volta 18, a bela apresentação cedeu lugar à loteria: a previsão de chuva se confirmara. Os pilotos precisaram visitar os boxes com uma incômoda frequência, ora para colocar pneus de chuva forte - o que, no caso de Kimi Raikkönen, por exemplo, foi prejudicial - ora para usar pneus intermediários. O excesso de pit stops, no entanto, não se mostrou determinante para o resultado da prova; o momento de parar é que pesou.

Jenson Button (Brawn), o "vencedor" - nas condições em que a prova terminou - somou quatro paradas, contra apenas uma de Nick Heidfeld (BMW-Sauber), valendo dizer que Heidfeld foi exceção. Timo Glock (Toyota) ficou em terceiro, seguido por seu companheiro Jarno Trulli. Completando a pontuação: Barrichello, Webber, Hamilton e Rosberg.

Um detalhe curioso: como o GP terminou com menos de 75% do total de voltas - isso não ocorria desde 1991 - os pilotos receberam apenas metade dos pontos. Com isso, Button lidera o campeonato com duas vitórias e 15 pontos, tendo Rubinho na vice-liderança, com 10, Jarno Trulli (3°) com 8,5 , Timo Glock com 8, Nick Heidfeld e Fernando Alonso com 4, Rosberg com 3 e Sebastien Buemi (STR) com 2 pontos.

O GP da Malásia foi encerrado antes de apagarem as luzes. Mas deixou uma pequena mostra de quão surpreendente e disputada será a Temporada 2009 da Fórmula 1.

Deu Zebra

Maior Abandonado

Lewis Hamilton sofre as consequências de Ron Dennis ter saído da chefia da Mclaren. O carro está bastante inferior ao de 2008, há duas provas ele larga fora das 10 primeiras posições, e ainda recebe punições pelos deslizes cometidos. Como o "padrinho" faz falta...

De Malas Prontas?

Os atuais incidentes permitiram que setores da imprensa cogitassem a aposentadoria de Lewis. Uma "brincadeira" de 1° de abril colocava o piloto britânico na Brawn Mercedes. Talvez hoje ele queira que esse último fato vire verdade...

Marte Ataca?

Felipe Massa disse que "os carros da Brawn são de outro planeta". Pelo menos Toyota e Williams mostram que poem encarar a disputa com a equipe de Button e Barrichello. Estará a F-1 sendo invadida por alienígenas?

Fiel Escudeiro

Vale lembrar que, não por acaso, Brawn, Toyota e Williams são as três equipes acusadas de usar equipamento irregular - os tais difusores.

Interferências

Se o julgamento de Paris (dia 14 de abril) sobre o uso de difusores for favorável às três equipes mencionadas, é melhor Felipe Massa e a Ferrari perceberem que há pessoas vibrando em outras frequências na F-1. A escuderia italiana, ao subestimar os tempos da primeira rodada de classificações (Q1) para o GP da Malásia - fazendo Massa largar em 16° - parece acreditar que os resultados de 2008 permitem-na esnobar os rivais...