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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nos tempos do Macacal - Parte 1

Albertão em 1973

Lembram daquilo que eu disse, que sou um diário descartável, que onde eu ando as pessoas vêm me falar da vida delas? Pois é, e eu, de mané, não pego o nome delas pra colocar no post sobre. Mas tudo bem. Meu "entrevistado" de hoje disse que era jogador de futebol aqui em Teresina nos anos 1970. Olhem a primeira parte do que ele me disse:

[Questionado por outro "diário ambulante" se era jogador de futebol]: "Como você sabe? Só pela batida da mão? [ele batia as mãos na mesa ao ritmo de uma música que tocava, uma marchinha de carnaval] Pois é, fui jogador aqui. Só parei porque meu joelho não agüentou. Fui jogador do tempo que futebol não dava dinheiro. Sim, porque hoje futebol é uma coisa muito doida, nego aí ganha dinheiro a balde.

Mas não aqui no Piauí, interrompi.

Retrucou: "Não, mas eu falo é de Sul e Sudeste. Lá, sim, tem dinheiro pra eles de mais. Futebol não é ilusão, futebol é dinheiro. Olha, no meu tempo, eu jogava no Fluminense [de Teresina], e eles queriam me pagar com o que hoje seria mais ou menos uns trezentos reais. Mas eu tinha que trabalhar como marchante, sendo estivador num comércio, porque era esse comércio que era dono do time. Lá eu carregava sacos e mais sacos o dia todo na cabeça, e jogava de graça pelo Fluminense no fim do dia.".

Mais à frente: "Aqui já teve muito nego bom de bola. Os times não faziam feio. Tinha Fluminense, Botafogo, Tiradentes. Esse Tiradentes já jogou pau a pau com os times do Sul e do Sudeste! Internacional e Tiradentes no Beira-Rio? 2 X 1 pro Inter, mas ô jogo roubado! Tiradentes e Vasco em São Januário? 3 X 1 pra nós [não se sabe quando foi isso, mas...]! O Corinthians veio pra cá? Perdeu também [ele só omitiu o fato de que o Corinthians deu de 10 X 1 no jogo de volta em São Paulo]! O nego Pelé, quando chamaram o Santos pra vir pra cá, não quis descer do avião. O Alberto Silva só fez mandar voltar o time todo! 'Se o Pelé não jogar, ninguém joga'!"

"Agora hoje? O Flamengo vai lá pra Copa São Paulo, só pra pegar taca! Porque não tem quem invista! Esse Elizeu aí mesmo, do River, agora que é deputado podia fazer alguma coisa pelos times daqui, será que faz?"

Continua... Na parte 2, eu falo do Macacal.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Raízes e Tradições

Foto: Professora Caroline

Cena da Dança do Boi, em Piripiri: é preciso conservar as tradições

Confesso que não gosto muito das quadrilhas em festas juninas. Exatamente por isso, resolvi assistir, com todo o rigor crítico que a minha ignorância artística permite, às danças da Quadrilha Junina do Colégio Baurélio Mangabeira de Piripiri, ocorrida em 13 de junho de 2008.

Muito me chamou a atenção a Dança do Boi, cuja coreografia é elaborada pelo professor de dança Wagner Cardoso, e ensaiada pela professora e cantora Francisca Paiva, mais conhecida como "Tia Paiva". Traços Esparsos conversou com ela a respeito desta dança e sobre as festas juninas como um todo:

Traços Esparsos: Como a senhora vê a aceitação do público em relação às festas juninas?

Francisca Paiva: As festas juninas são bem aceitas em Piripiri. Tem sempre um bom público, especialmente a galera jovem, pois os conjuntos que animam as festas geralmente tocam o que agrada à turma, músicas tipo "Beber, Cair e Levantar". Entretanto, não existe preocupação com a beleza e a preservação do folclore, das músicas e das danças nordestinas. Veja a mentalidade: [os jovens] acham [as músicas folclóricas] antigas.

TE: Em uma dança como a que a senhora ensaiou (o Boi), marcada pela tradição, como fazer para introduzir algum elemento novo e de qualidade?

FP: Eu sou uma apaixonada por arte - por todas elas - e pelo folclore nordestino. Todos os anos, faço o possível para acompanhar o "Bumba-Meu-Boi" e me responsabilizar por ele. Pesquiso as músicas e faço um "pout-pourri" [mistura] dos vários ritmos e culturas do Boi do Brasil, e daí apresentamos ao público. Acho que festa junina tem que ter Boi, porque é o símbolo do folclore.

Acho que o elemento novo que deve ser introduzido é o tema: músicas com um bom recado. No Piauí, precisamos de CD´s das coisas, das tradições do Piauí, dos Bois; se existe algo assim, não conheço.

TE: A última música da apresentação, "Primatas", aborda, entre outros, um tema muito debatido atualmente: o desmatamento da Amazônia. Foi algo intencional ou a senhora escolheu essa música por causa da melodia? A senhora acredita ser possível - e mesmo válido - utilizar as manifestações artísticas como instrumento de conscientização política?

FP: Quando vou escolher uma música, escolho um ritmo bem dançante e que seja bom para a coreografia. No caso da música "Primatas", dos bois de Parintins, achei maravilhosa a letra, a melodia, os efeitos, tudo. A música fala da evolução, da criação, dos primatas, do homem primitivo, da descoberta do fogo, da flecha, dos rituais, das guerrras, das danças, das tribos.

Com certeza, acredito que as manifestações artísticas podem ser um "instrumento de conscientização política". Cabe, a quem estiver orientando [essas manifestações], fazer uma releitura do que vai ser mostrado.

Por exemplo: a história do Boi. Conta a lenda que a escrava Catirina, casada com o escravo Pai Francisco, estava grávida, e desejou comer a língua do boi do patrão. Pai Francisco matou o boi, e o patrão descobriu; por isso, o escravo foi preso. O animal ressuscitou depois das orações de um pajé e de rezadeiras. O Boi é festejado para lembrar esse milagre.

Isso faz a gente refletir sobre a fome no Brasil, a pobreza, a exploração dos pobres, e sobre como os pobres devem se organizar para conseguir seus direitos. Conhecer o valor que cada um tem nas organizações da sociedade.

TE: A senhora acha necessário haver algum tipo de mudança na forma como são apresentadas as danças juninas, ou a tradição ainda é capaz de atrair o público?

FP: O povo que não conserva suas tradições culturais é povo sem memória, sem história. Pode-se caprichar na indumentária, na alegoria temática, mas sem sair da tradição das danças: dança do coco, xaxado, quadrilhas, cavalo Piancó, e outras. Tudo que é bem feito o povo gosta. O povo gosta das festas juninas. Cabe a quem está organizando caprichar.

Destaco, aqui em Piripiri, o "Portal do Forró" [evento realizado nos dias 5, 6, 7 e 8 de junho deste ano]: todas as danças merecem parabéns. Todas folclóricas, as músicas no clima de São João do Nordeste. Um luxo nas indumentárias. Às vezes, algumas pessoas acham que as roupas das quadrilhas devem ser todas "esmolambadas". Mas o povo da roça, comumente associado a essas danças, gosta é de linho de xadrez. Nunca de andar remendado.

TE: O que a senhora acha da inserção de ritmos como o calipso, a salsa - ou outros - que, de certo modo, fogem aos estilos comumente apresentados nas festas juninas?

FP: Eu sempre reflito que, se for em um festival de danças, tudo pode, salsa, tango, valsa, samba, e outros. Se a Banda Calypso entrar no clima de São João, com as mazurcas [dança polaca], forrós como "Olha pro céu, meu amor" é bem-vinda! Não gosto é dos forrós do tipo das bandas da moda. Acho estranho e esquisito. Dou nota dez, por exemplo, para o "Mastruz com Leite", que regravou uma seqüência maravilhosa das músicas juninas.